Atualmente, há diversos entendimentos a respeito de como viver uma vida de obediência na fé cristã. Geralmente, ouvimos respostas como: “Leia mais a Bíblia”, “Jejue mais”, “Ore mais”, “Vá à igreja”, “Obedeça aos mandamentos”. Essas práticas são boas, a crítica aqui não é sobre elas em si, mas sobre a superficialidade com que muitas vezes são apresentadas aos nossos irmãos.

Este texto será dividido em partes, para não se tornar extenso demais, tudo bem?

O ponto que quero abordar é: essas respostas são realmente suficientes? O que nos leva, como igreja, a repetir essas fórmulas prontas?

A primeira coisa que desejo estabelecer é que viver em “santidade prática” não advém de uma fórmula mágica do tipo “faça isso ou aquilo e você vencerá o pecado”, mas de um relacionamento com Jesus. Sei que essa afirmação pode soar simples, mas é fundamental que nos lembremos disso. Jesus não é uma ideia ou um conceito abstrato; Ele é uma pessoa real, com quem podemos nos relacionar, conversar e crer. Dane C. Ortlund, em seu livro Santificação Profunda, afirma: “Crescer em Cristo é uma experiência de relacionamento, e não de formulações”.

O evangelho é apenas uma porta de entrada?

Falamos tanto da necessidade de pregar o evangelho aos incrédulos, mas frequentemente nos esquecemos de anunciá-lo também à família da fé. Talvez você discorde dessa afirmação, mas reflita: em nossa prática cotidiana, não é exatamente isso que demonstramos? Dizemos: “Ah, o amor de Deus, a salvação pela graça e a justificação pela fé são para os novos na fé; nós precisamos avançar para coisas mais espirituais e profundas”. No entanto, ao observarmos o Novo Testamento, encontramos um cenário totalmente diferente. Para Paulo, não somos salvos pelo evangelho para depois sermos deixados aos nossos próprios esforços e desempenho.

O evangelho não é apenas o ponto de partida da vida cristã; é também o lugar onde frutificamos. Veja o que ele escreve aos colossenses:

“Pois temos ouvido falar da fé que vocês têm em Cristo Jesus e do amor que demonstram por todos os santos, por causa da esperança que está reservada a vocês nos céus, a respeito da qual ouviram por meio da palavra da verdade, o evangelho, que chegou até vocês. Por todo o mundo, esse evangelho vai frutificando e crescendo, como também ocorre entre vocês, desde o dia em que o ouviram e entenderam a graça de Deus em toda a sua verdade.”
(Colossenses 1:4-6)

Observe que Paulo afirma que o evangelho está frutificando no mundo(entre os que ainda não conhecem a Cristo) e também entre vocês, ou seja, entre os próprios irmãos da fé. Isso quer dizer que, se não estamos vendo frutos em nossa vida, o problema não é falta de aprimoramento moral ou legalista, mas de aprofundamento no evangelho.

Para Paulo, viver em santidade não é resultado de uma vida sob a lei, mas sob a graça, uma vida fundamentada no evangelho, consciente de que fomos salvos pela graça e que essa mesma graça é o que nos sustenta. Em suas cartas, Paulo constantemente relembra os cristãos daquilo que eles são e possuem em Cristo. Vivemos aquém dessa realidade porque nos esquecemos dos indicativos do evangelho. Leia, por exemplo: Romanos 6:1-14; 1 Coríntios 3:16; 6:12; 9:11; 15:1.

Infelizmente, muitas igrejas ainda pregam uma santidade baseada no “fazer para ser”. Suas mensagens sobre santidade frequentemente partem de um medo de Deus desconectado da verdade do evangelho.

Veja o que Paulo diz em Romanos 1:7:

“A todos os que estão em Roma, amados de Deus, chamados para serem santos…”

Ele estabelece a identidade (“amados de Deus”) antes de apresentar o comportamento esperado (“chamados para serem santos”). Quantas vezes, ao contrário disso, ouvimos, ou mesmo dissemos, que alguém precisa abandonar o pecado para ser salvo, mais amado por Deus ou tornar-se santo, como se o amor divino estivesse condicionado ao nosso comportamento?

Avançamos na vida cristã permanecendo nas verdades já estabelecidas no evangelho. O agir santo não nos torna mais ou menos amados por Deus, porque o amor d’Ele não depende de nosso comportamento. Ele não varia conforme nosso pecado, mas é constante, pois está fundamentado no próprio caráter de Deus — e esse caráter é imutável!

Para encerrar, deixo um versículo e uma frase de Martinho Lutero:

“Mantenham-se no amor de Deus, enquanto aguardam a misericórdia do nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna.”
(Judas 1:21)

Permaneça. Não vá além disso. Conheça esse amor e continue crendo nele!

“Progredir é sempre começar de novo.”
(Lutero)


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